Como transformámos uma pequena aplicação num negócio de 20.000 dólares por mês com recursos próprios

Esta história foi publicada originalmente no Reddit.
Sou programador web full-stack, sou polaco e, juntamente com o meu irmão gémeo, criei o Free Your Music. O Free Your Music permite transferir playlists entre serviços de streaming de música, como o Spotify, o Apple Music, o Amazon Music, entre outros. A maioria dos nossos clientes são simplesmente pessoas que querem mudar de serviço e levar as suas playlists consigo.
Queria partilhar convosco como um pequeno script que escrevi para uso próprio se transformou num negócio rentável (a empresa está prestes a completar 6 anos).
Como surgiu a ideia
Logo após o lançamento do Apple Music (em 2015), fiquei com muita vontade de deixar o Spotify para experimentar o novo serviço. Normalmente, alguém acaba por desenvolver uma ferramenta como o Free Your Music, mas, depois de esperar 2 semanas, reparei que ainda não existia nada.
Transferir 3000 músicas manualmente teria demorado horas, por isso tentei descobrir como automatizar o processo. Depois de algumas horas a explorar o AppleScript, criei uma aplicação que, literalmente, só usava o rato para clicar nas opções do iTunes: procurar uma música -> clicar em mais -> clicar para adicionar música -> repetir.
Como funciona a aplicação
É muito simples. Primeiro, inicias sessão com a tua conta num serviço de streaming (por exemplo, o Apple Music) e, depois, noutro (digamos, o Spotify). O Free Your Music vai então buscar todas as tuas playlists ao Apple Music, incluindo os títulos das músicas, os nomes dos artistas e os álbuns. Depois, faz uma pesquisa no Spotify, com um pouco de magia para encontrar as correspondências certas. Por exemplo, alguns serviços usam “[feat]” e outros “(feat)”. Assim que o FYM identificar corretamente todas as músicas, cria uma playlist no Spotify.
Adicionar várias origens e destinos é sempre um pouco complicado, porque os serviços são muito diferentes entre si!
Vamos transformar isto num negócio
Achei que o que tinha criado podia ser útil a outras pessoas, por isso fiz um pequeno site e publiquei-o no ProductHunt. No início era gratuito, mas as pessoas podiam fazer donativos através de um botão que dizia “paga-me uma cerveja” 😉 Logo no primeiro dia, a aplicação foi notícia em vários jornais e revistas online, o site recebeu 20 mil visitantes únicos e consegui 97 € em donativos. Pensei: “Tudo isto por ter feito um pequeno script depois do trabalho? Nada mau.”
Foi então que o meu irmão disse: “Olha, vamos melhorar isto e começar a vendê-lo!” Por isso, eu, o meu irmão Mike e o nosso amigo Chris juntámo-nos e passámos a noite inteira a criar uma aplicação a sério. Acho que eram 5 da manhã quando a lançámos. Recebemos o primeiro pagamento em menos de 5 minutos e depois fomos dormir umas horas.
A partir daí, foi uma loucura. Voltei ao trabalho e via pessoas a comprar licenças ao longo de todo o dia. Tínhamos tanta coisa para fazer que precisei de tirar uma semana de férias. Durante os primeiros meses, tivemos de trabalhar 16 horas por dia: metade nos nossos empregos a tempo inteiro e a outra metade no Free Your Music.
Como evoluiu a faturação
No primeiro mês, faturámos mais de 15.000 € graças ao ProductHunt, mas nos meses seguintes os valores foram bastante mais baixos, a rondar os 6.000 €. Ao fim de cinco anos, a nossa faturação média mensal rondava os 20.000 €.
Experimentámos diferentes modelos de preços: começámos nos 5 €, depois passámos para 12 € e, após alguns testes, percebemos que 9 € era o preço que funcionava melhor para o Free Your Music. Entretanto, também adicionámos suporte para iOS, Android e muitos outros serviços de música.
Graças ao Free Your Music, eu e o meu irmão conseguimos deixar os nossos empregos e concentrar-nos em criar as nossas próprias empresas.
Como crescemos
Desde o início, preocupámo-nos em ter as etiquetas de SEO certas e todos os elementos básicos em ordem. Se pesquisares no Google por “ferramenta de análise SEO de sites”, vais encontrar imensos recursos que te dizem o que falta: meta tags, descrições, carregamento rápido, etiquetas h1, compressão, etc. Tudo isso influencia a tua posição nos resultados do Google.
Depois disso, o crescimento foi orgânico. Limitávamo-nos a melhorar constantemente as nossas aplicações e a adicionar novos serviços e plataformas. Também fomos os primeiros a permitir a transferência de playlists do Apple Music através de uma aplicação para iOS, algo que se tornou possível com a atualização iOS 9.3.
O verdadeiro crescimento começou quando percebemos que o Free Your Music era um negócio a sério, e não apenas uma máquina de fazer dinheiro que duraria alguns meses. A partir daí, começámos a pagar-nos salários fixos, mas sem exageros. Deixámos bastante dinheiro na conta bancária da empresa, o que nos permitiu investir no negócio. Contratámos mais pessoas para nos ajudar com o desenvolvimento, o marketing e o apoio ao cliente.
Estamos sempre a pensar em como melhorar o Free Your Music para deixar os utilizadores mais satisfeitos. Neste momento, estamos a lançar um novo serviço para curadores de música. Vai ajudar artistas e marcas a aumentar o seu público através de playlists universais, compatíveis com várias plataformas.
Como tratámos das questões legais
O Free Your Music teve sucesso de um dia para o outro e começámos a ganhar dinheiro logo no primeiro dia, o que nos obrigou a abrir uma empresa o mais depressa possível.
Felizmente, os meus pais tinham trabalhado por conta própria, por isso eu já estava familiarizado com o mundo dos negócios. Na Polónia, é possível abrir uma empresa em menos de um dia, por isso tirei uns dias de férias e, no dia seguinte, já tinha a empresa aberta. Depois, constituímos uma sociedade civil de direito polaco, que era basicamente uma parceria entre as empresas individuais de todos os fundadores.
Mas havia um problema com essa estrutura. Não tinha personalidade jurídica própria e, se surgisse algum problema, toda a responsabilidade recaía sobre nós. Além disso, as pessoas confiavam menos em nós quando viam aquela estranha designação de “sociedade civil” no nome da empresa. Estavam habituadas a sociedades LTD e a empresas constituídas em Delaware. Por isso, nos meses seguintes, constituímos a Free Your Music LTD no Reino Unido e transferimos tudo para lá.
Quanto às questões legais, tivemos sempre o cuidado de não pisar os calos a ninguém. A indústria da música é muito rigorosa na defesa dos seus direitos, por isso garantimos que não infringíamos nenhuma licença.
O que faríamos de forma diferente
- Sem dúvida, teríamos usado o Electron desde o início para criar uma versão para Windows/MacOS com uma única base de código. No início, estávamos a desenvolver uma aplicação nativa para Windows e outra para MacOS, separadamente. A certa altura, percebemos que estávamos a demorar demasiado tempo a levar as funcionalidades para Windows (tínhamo-nos concentrado no MacOS). Ainda bem que tivemos coragem de dizer: “Vamos reescrever o que temos em Electron para ficarmos com uma base de código partilhada, exceto em alguns casos, como o proxy do iTunes.”
- Teríamos constituído uma LTD logo no início.
- Teríamos pago por um logótipo e um site com design profissional muito mais cedo.
- Teríamos usado o Stripe em vez do Braintree, porque o banco do Braintree encerrou a nossa conta por não compreender a licença do SDK do Spotify.
Claro que hoje sabemos tudo isto, mas, quando o Free Your Music estava a começar, não fazíamos ideia de quanto tempo duraria, por isso tínhamos cuidado com os gastos.
Não deixámos os nossos empregos imediatamente, para o caso de o FYM falhar, e acho que foi uma boa decisão: não te deves atirar de cabeça. Primeiro, deves experimentar aos poucos e desenvolver o negócio como um projeto paralelo. Ao mesmo tempo, deves avaliar o rumo que está a tomar e decidir rapidamente: o meu emprego atual ou o meu negócio. Olhando para trás, devíamos ter saído mais cedo.
Alguns conselhos para transformar o teu projeto paralelo num negócio rentável
Para seres independente, tens de ganhar dinheiro suficiente para te sustentares. Se tens um projeto ao qual te dedicas depois do trabalho, mas já passaram meses e ainda não tens clientes a pagar, isso costuma indicar que não há mercado para ele ou que não lhe tens dedicado atenção suficiente.
Antes do Free Your Music, criei vários projetos que falharam, e foi isto que aprendi: todos os negócios têm de dar dinheiro, e é preciso encerrar rapidamente os que não dão. Trata o teu projeto paralelo como qualquer outro negócio. Se não der dinheiro ao fim de alguns meses, muda alguma coisa no produto ou encerra-o e começa algo novo.
Além disso, delega tarefas que te ocupam muito tempo, mas que qualquer outra pessoa poderia fazer. Perdemos imenso tempo a responder a emails de clientes em vez de melhorar a aplicação.
Lê tudo o que Paul Graham escreveu. Os seus textos têm tanto conhecimento e tantos bons conselhos que vais ficar surpreendido.
Lê histórias sobre como outras empresas começaram. É verdade quando se diz que quase todas as empresas enfrentam problemas semelhantes. De certeza que há alguma empresa no mesmo setor ou com problemas parecidos com os teus com a qual podes aprender.
Fala com outras pessoas. Há inúmeros grupos no Slack, grupos no Facebook, perguntas no Quora, etc. Vais ficar surpreendido com a vontade que os outros têm de te ajudar.
Diversifica. Se nos tivéssemos limitado ao Spotify e ao Apple Music, apenas no MacOS, seríamos muito mais pequenos ou já teríamos fechado. Procura oportunidades de mercado que ainda não estás a aproveitar, mas que podes explorar facilmente com o teu produto. Por exemplo, olha para o que a Uber fez com a entrega de comida. Podes fazer o mesmo, mesmo que sejas bastante mais pequeno do que a Uber.
As suas playlists pertencem-lhe.
Pare de reconstruir à mão. Mova tudo em minutos e leve a sua música para onde quer que vá.
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