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Mulheres na música

September 14, 2026
Mulheres na música

Março é o Mês Internacional da História das Mulheres, a altura ideal para refletir sobre a forma como a música influenciou e continua a influenciar a vida das mulheres.

Antes de celebrarmos e falarmos das pioneiras nas mais diversas áreas da indústria musical, é essencial começar por alguns factos e números sobre as mulheres neste setor.

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Fotografia de Rosa Rafael no Unsplash

Factos sobre as mulheres na música

  • Em 2022, apenas 30% dos artistas na tabela anual Billboard 100 eram mulheres.
  • Em 2022, 65% dos artistas de grupos sub-representados eram mulheres desses grupos, um aumento de 10% face a 2021.
  • Em 2021 e 2022, 14% dos compositores eram mulheres.
  • Surpreendentemente, ao longo de 11 anos, mais de 50% das canções não atribuíram créditos a compositoras, embora 43% das canções tivessem mulheres entre os seus autores. Em contrapartida, apenas 1% não atribuiu créditos a compositores homens.
  • Numa análise de mais de 800 canções, apenas 3,4% dos produtores eram mulheres em 2022.
  • A tabela anual Billboard Hot 100 de 2022 contou com apenas uma artista que trabalhou com uma produtora: Nicki Minaj e Malibu Barbie.
  • Entre os artistas presentes nessa mesma tabela anual de 2022, nenhum dos que tinham assumido o compromisso trabalhou com uma engenheira de som.
  • O Songwriting Hall of Fame contava com 459 artistas homenageados, dos quais apenas 35 eram mulheres (dados de 2023).

Fonte: Para as mulheres na música, subir nas tabelas rumo à igualdade é um processo lento.

O Spotify foi a plataforma de distribuição digital (DSP) que forneceu os dados para o estudo associado a estes números: Inclusão no estúdio de gravação? Género e raça/etnia de artistas, compositores e produtores em 1100 canções populares de 2012 a 2022.
E, apesar destes números, as mulheres continuam a deixar a sua marca na música, seja na engenharia de som, na composição, como DJs, instrumentistas ou noutras áreas.

Vamos então conhecer algumas das mulheres que, apesar de serem «invisíveis», estão a fazer a diferença na indústria musical.

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Fotografia de Kobe Subramaniam no Unsplash

As pioneiras na história das mulheres na música

Antes de Beyoncé, antes de Taylor Swift e muito antes de Lizzo, já havia mulheres a deixar a sua marca na música e a abrir espaço para as artistas que conhecemos hoje.

Sister Rosetta Tharpe

Sister Rosetta Tharpe cresceu rodeada de música e, segundo consta, já tocava guitarra em igrejas pentecostais aos 4 anos. O seu estilo combinava gospel, jazz de Nova Orleães e Delta blues, uma mistura que deu origem a uma das suas canções mais conhecidas e acarinhadas, "Strange Things Happening".

Sabemos que o gospel lançou as bases de quase toda a música que ouvimos hoje, e esta foi a primeira canção de gospel a entrar no top 10 das tabelas de R&B.

Lea Salonga

Com apenas 20 anos, Lea Salonga ganhou um prémio Tony pela sua interpretação de Kim em Miss Saigon. Além de ter sido a primeira atriz asiática a ganhar um Tony, a sua carreira prolongou-se por mais 40 anos.

Achas que nunca ouviste falar dela? É bem provável que já a tenhas ouvido mais do que uma vez. É dela a voz cantada das princesas Disney Jasmine e Fa Mulan.

Missy Elliott

Missy Elliott abriu caminho para outras artistas e, por isso, continua a ser citada em fóruns e canções, além de ser uma inspiração para as rappers de hoje.

Para quem se lembra de One in a Million, de Aaliyah, a canção foi escrita por Missy. O seu trabalho visual, aliado ao seu estilo único e à fluidez das suas rimas, deixou uma marca profunda no mundo da música. E ela continua a criar.

Hildegarda de Bingen

Talvez nunca tenhas ouvido este nome, mas Hildegarda é uma das primeiras compositoras conhecidas da música ocidental. Teóloga, mística, cientista e compositora, era também freira. Escreveu inúmeras canções para serem cantadas pelas religiosas.

Oitocentos anos depois, surgiu interesse pela sua obra e, em 1979, quatro das suas canções ganharam vida numa primeira interpretação.

Janis Joplin

Foi uma inspiração para Florence Welch, Stevie Nicks, Pink e muitas outras artistas. Embora tenha morrido com apenas 27 anos, a sua presença em palco e as suas letras profundamente emotivas deixaram um eco na indústria musical que continua vivo até hoje.

No auge da sua breve carreira, foi apelidada de primeira Rainha do Rock 'n' Roll.

Michele Anthony

Michele Anthony, uma das executivas mais influentes da indústria, denunciou injustiças nos Grammys devido à falta de transparência e inclusão. Atualmente, é vice-presidente executiva da UMG, que tem vindo a estabelecer relações com plataformas de distribuição digital para conseguir uma remuneração mais justa.

Fundou a 7H Entertainment, que teve entre os seus clientes Black Sabbath, Ozzy Osbourne e Pearl Jam. Em 2018, era a mulher com o cargo mais elevado na área discográfica da UMG.

Lauryn Hill

The Miseducation of Lauryn Hill foi o álbum que fez de Lauryn a primeira mulher a ganhar cinco Grammys numa única cerimónia. Foi em 1999, na 41.ª edição dos prémios. Desde o início, Lauryn tem enfrentado rejeição e hostilidade na indústria.

As suas letras eram e continuam a ser radicais, e a artista já afirmou que nunca quis ser uma figura de capa fabricada pela indústria musical.

Lauryn Hill mantém-se firme na defesa do valor do seu trabalho: recusa entrevistas não remuneradas, porque a indústria musical e os meios de comunicação se apressam a exigir que as mulheres negras apareçam sem receber nada em troca. O seu álbum continua a ocupar lugares de destaque nas listas dos melhores álbuns de sempre, incluindo os de autoria feminina. É uma prova do seu profundo impacto cultural.

Taylor Swift

Em certos aspetos, segue as pisadas de Lauryn Hill. Taylor Swift é um ícone global da pop que tem defendido abertamente os direitos das mulheres.

Também travou uma batalha pelos direitos das suas gravações originais e deu maior visibilidade ao debate sobre os direitos dos artistas, em particular sobre o facto de não serem donos do seu próprio trabalho. Para contrariar essa situação, regravou e lançou os seus primeiros trabalhos, passando a conduzir a carreira nos seus próprios termos.

Ella Fitzgerald

A Primeira-Dama da Canção ganhou 13 Grammys, o que parece muito, mas tem mais de 200 álbuns em seu nome. Isto mostra que nem mesmo ser um nome conhecido de todos, com canções constantemente usadas em samples, citadas e tocadas, basta para receber o reconhecimento merecido.

A este propósito, vale a pena lembrar que Ella não só foi a primeira mulher negra a ganhar um Grammy, como também lutou constantemente contra a discriminação durante a era das leis de Jim Crow.

Inúmeras outras

Há muitas mais, claro, e seria uma falha não mencionar aqui os seus nomes: Aretha Franklin, a Rainha do Soul, duplamente marginalizada; Diana Ross, que rompeu com o modelo convencional dos grupos femininos e abriu um novo caminho; Dolly Parton, uma referência num género dominado por homens, que defendeu os seus direitos, recusando que Elvis gravasse uma versão da sua música por questões de direitos de edição; Joni Mitchell, que partilhou emoções profundas sem reservas e experimentou novas abordagens musicais; e Patsy Cline, a primeira mulher a entrar no Country Music Hall of Fame, em 1973, já depois da sua morte.

Sem esquecer figuras de referência da música clássica, como Chen Yi, a primeira mulher a obter um mestrado em composição.

É quase uma pena não prolongar esta lista, mas há um presente e um futuro para os quais olhar, com artistas como Lady Gaga, Ariana Grande, Beyoncé e Kesha a dar continuidade a este percurso.

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Fotografia de SoundGirls Women in Audio no Unsplash

Os obstáculos que as mulheres enfrentam na música

Antigamente, para uma mulher se dedicar à música, precisava de nascer nesse meio, ser freira ou corresponder ao que era considerado «agradável». A reputação era tudo: as mulheres não queriam arriscar ser vistas como «malcomportadas» ou «rebeldes». A música de hoje teria sido um escândalo.

O ensino musical nunca foi considerado um espaço para mulheres. Ainda assim, esperava-se que soubessem tocar um instrumento e cantar quando lhes fosse pedido, apenas para entreter em festas, nunca como profissionais. Só no século XIX é que as mulheres começaram a ter espaço para exercer a música profissionalmente e frequentar o ensino musical formal.

As pressões sociais e os papéis que lhes eram atribuídos ditavam que a religião e a família tinham prioridade. Na maioria dos casos, as mulheres que alcançavam sucesso e notoriedade na música vinham de famílias abastadas, com amas e pessoas que cuidavam da casa.

Foram precisos centenas de anos para chegarmos onde estamos hoje, e as mulheres mencionadas acima são apenas uma pequena parte de todas as que tornaram isso possível.

E as mulheres que ouvem música?

Em 2022, a IFPI publicou um relatório que traçou um retrato global da forma como as pessoas se relacionavam com a música.

Uma das conclusões mais interessantes foi que 69% dos ouvintes consideravam a música importante para a sua saúde mental. O grupo que mais valorizava a música neste contexto era o dos utilizadores de serviços de streaming pagos, o que faz sentido. Em segundo lugar, porém, estavam as mulheres, com uns expressivos 72%.

É importante olhar para o poder de compra, porque tem um papel significativo no sucesso dos serviços de streaming e nas vendas de merchandising, na projeção que os artistas alcançam e na economia da música em geral.

Em março de 2020, a Nielsen indicou que, até 2028, as mulheres controlariam 78% dos gastos não essenciais, o que as torna as maiores influenciadoras de decisões como a subscrição de serviços de streaming. As marcas estão a começar a perceber isso e a procurar novas formas de se aproximarem das mulheres.

  • 65% dos utilizadores do Spotify nos EUA são mulheres – Fonte.
  • 36,9% dos utilizadores do TIDAL são mulheres – Fonte
  • 42,3% dos utilizadores do Deezer são mulheres – Fonte
  • 56% dos utilizadores do Apple Music são mulheres – Fonte

É claro que o streaming de música faz parte de uma influência feminina mais ampla na economia do entretenimento. E as artistas contemporâneas, apoiadas no caminho aberto pelas que as antecederam, são a razão disso.

A StubHub indicou que os bilhetes para as digressões de Taylor Swift e Beyoncé representam 66% dos bilhetes dos dez principais artistas em digressão. As fãs não se limitam a apoiar as artistas: também compram CDs e merchandising, ouvem a sua música em streaming, dão-na a conhecer a outras pessoas e incorporam algumas das mensagens das letras nas suas vidas.

Pensa nisto: antes dos concertos de Taylor Swift e Beyoncé, as vendas de chapéus de cowboy, roupa com franjas, missangas e bijuteria aumentam até 500% só nas lojas de artesanato Michales – fonte. Isto é que é poder de compra.

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Fotografia de kevin laminto no Unsplash

As artistas que estão a abrir caminho

Cardi B, Megan Thee Stallion, SZA, Miley Cyrus, Beyoncé e Taylor Swift atraem milhões de ouvintes do sexo feminino, que recorrem às plataformas de streaming para as ouvir.

Em 2023, segundo dados divulgados pela Luminate, a quota das artistas femininas no streaming de áudio a pedido nos EUA aumentou 4,2 pontos percentuais. Aliás, três das cinco canções mais ouvidas em streaming eram de mulheres: SZA ocupava o segundo e o quinto lugares, e Miley Cyrus o quarto.

No Reino Unido, as vendas de música aumentaram 10%, com um crescimento também no vinil. Em 2023, as mulheres passaram 31 semanas no topo da tabela britânica de singles, com artistas como Ellie Goulding, PinkPanthress e Dua Lipa. As mulheres foram também responsáveis por quatro dos maiores êxitos do ano no Reino Unido e por sete das dez canções do top 10 – fonte.

Este artigo do Guardian resume bem a situação: «Número de mulheres na música nos EUA atinge o valor mais alto da década, mas continua longe da paridade.»

Como podes apoiar as mulheres na música?

Para que a mudança continue, como afirma Stacy L Smith no artigo acima, será necessário o trabalho de vários grupos para apoiar as mulheres na indústria, através de iniciativas e da defesa dos seus direitos. «Ainda há muito pouco reconhecimento para as produtoras e compositoras nessas categorias, e são demasiado poucas as mulheres racializadas nomeadas pelo seu trabalho.

Para que os prémios da indústria musical reflitam verdadeiramente os profissionais criativos e o público a quem se dirigem, tem de haver espaço para as mulheres, em particular para as mulheres racializadas, nestas distinções.»

Então, como podes tu, enquanto utilizador de streaming de música, ajudar a garantir que as artistas contemporâneas, as mulheres na música country, as bandas exclusivamente femininas e tantas outras recebam reconhecimento para além do Dia Internacional da Mulher e do Mês da História das Mulheres, quando o tema está em destaque?

  • Leva a música para as redes sociais! Partilha canções, identifica a artista e interage com os teus amigos. Até os retweets podem fazer maravilhas por artistas menos conhecidas.
  • Começa a criar playlists no serviço de música que usas. Combina músicas populares com outras menos conhecidas e ajuda a mostrar às plataformas de streaming que devem recomendar mais música feita por mulheres. Inclui bandas exclusivamente femininas, artistas a solo e muito mais.
  • Compra produtos físicos quando o teu orçamento o permitir. Ouvir a música delas em streaming é ótimo, mas a remuneração é baixa. Procura merchandising oficial.
  • Interage nas plataformas de streaming: deixa gostos nos perfis, nas páginas das artistas e nos álbuns, e aproveita as restantes opções de interação.
  • Começa a procurar editoras discográficas, grandes e pequenas, pertencentes a mulheres, bem como produtoras e engenheiras de som. Faz questão de descobrir o trabalho delas. O TIDAL destaca-se pela informação que disponibiliza nos créditos, por isso é um ótimo ponto de partida.
  • Se trabalhas no setor da música, cria contactos com mulheres responsáveis por salas de concertos, agenciamento, programação de espetáculos, promoção e gestão de artistas.
  • O número de mulheres na área do áudio está a aumentar, mas crescerá mais depressa se as organizações que lhes dão apoio também forem apoiadas. Conhece a Women's Audio Mission, a Femme House, a We Are Moving The Needle e a SoundGirls. Descobre mais neste artigo da Stereofox: 15 organizações que apoiam as mulheres na música e trabalham pela igualdade na indústria musical.
  • Marca presença e acompanha festivais online dedicados às mulheres.
  • Investe o teu dinheiro e o tempo que passas a ouvir música em streaming onde possam fazer a diferença. Analisa as iniciativas de apoio e as estatísticas dos serviços de streaming e procura aqueles que apoiam os artistas durante todo o ano, para além dos momentos em que um tema está em destaque. Ou procura o serviço que melhor remunera os seus artistas.

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